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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

[Resenha] Deuses americanos

GAIMAN, Neil. Deuses americanos. 3. ed. São Paulo: Conrad, 2011. 448p.

RESENHA
por Juliana R. Santos

Capa - Editora Conrad. Edição 2011
   Outro ótimo livro de Gaiman. Mistura elementos de diversas mitologias e diversas culturas do mundo em uma fantástica trama no mundo atual. O livro narra a história de Shadow, um presidiário libertado mais cedo da prisão devido à morte de sua esposa Laura. Enquanto voltava para a cidade onde vivia com a esposa, Shadow conhece Wednesday, um misterioso velho que deseja a todo custo contratá-lo como guarda-costas. Mais tarde, o leitor percebe que Wednesday, assim como outros personagens da história são, na verdade, deuses de culturas antigas, como a mitologia nórdica, egípcia, eslava, afr
icana, entre outras, e as novas culturas, com deuses como a internet, televisão e cartão de crédito. 

  Na trama, tal como acontece na vida real, os antigos deuses estão sendo esquecidos, desaparecendo, enfraquecendo e morrendo, enquanto são lentamente substituídos pelos novos e poderosos deuses, passando a agir como meros humanos, ou como trapaceiros e marginais. Wednesday, na verdade o deus Odin da mitologia nórdica, busca então trazer outras das antigas  divindades para uma guerra contra as novas tecnologias que pretendem eliminá-los. Neste contexto, Shadow encontra-se meio desorientado, tanto pela recente morte da esposa, e pelas constrangedoras condições de sua morte, quanto pelos fatos estranhos que começa a presenciar depois que aceita se juntar a Wednesday como guarda-costas. No início da narrativa, incomoda um pouco a aparente e constante apatia do protagonista, que parece não se questionar ou se importar com os fantásticos acontecimentos de que é testemunha ao longo de sua jornada, apenas seguindo as instruções que lhe são passadas. Claro que essa apatia pode ser devido à situação estranha, e à tristeza pela recente perda da esposa, mesmo assim, não deixa de incomodar. Felizmente, mais adiante, o personagem muda um pouco essa postura passiva e passa a, ele mesmo, "assumir as rédeas" da situação, deixando apenas de obedecer, para também agir por conta própria em diversos momentos a medida que vai compreendendo cada vez mais o estranho universo que o rodeia. 
Capa - Editora Presença. Edição 2009

  Ao longo da jornada dos personagens pelos Estados Unidos, somos apresentados a várias cidades e algumas histórias e divindades associadas a elas, numa verdadeira viagem turística pelo país. Também é interessante a interseção de alguns capítulos narrando a vinda de pessoas, dos mais diferentes credos, em diferentes épocas, para a terra que hoje é os Estados Unidos, e como essas pessoas trouxeram com elas os seus deuses, que participam da trama juntamente com Wednesday. 

  A presença de um personagem inesperado traz um tom cômico à
história quando mostra a estranha relação que se estabelece entre este e Shadow. Outros personagens também trazem uma atmosfera divertida à narrativa seja pela ironia, seja pelas atitudes engraçadas, um desses personagens é Anansi, que aparece, inclusive, em outro livro do autor Filhos de Anansi.

   Excelente livro, não li muitos do autor (4 no total, com outros na fila para serem lidos), mas até agora este foi o melhor deles, e acho difícil que Gaiman possa escrever algo que o supere. A obra nos introduz, de forma divertida, a várias culturas e credos do mundo, utilizando-se de personagens cativantes e com uma narrativa muito envolvente que quase não nos deixa parar de ler, terminando com um final muito surpreendente e inesperado. Recomendo fortemente a leitura deste livro! 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

[Resenha] Crepúsculo de Avalon

ELLIOTT, Anna. Crepúsculo de Avalon. São Paulo: Prumo, 2009. 479p. (Um Romance de Tristão e Isolda, v.1)

RESENHA
por Juliana R. Santos

Capa - Editora Prumo
O livro faz parte de uma trilogia que narra mais uma versão da lenda do Rei Arthur, Morgana, Guinevere, etc. Parece que, por mais que se crie versões e mais versões sobre o assunto, ele nunca será esgotado, pelo menos não foi até agora, e é agradável ler cada nova forma de contar uma história mais ou menos similar. Porém, o livro em questão foge um pouco dos personagens tradicionais, como os que foram citados acima, e avança alguns anos no futuro, ou seja, um futuro próximo, onde Arthur é relembrado como um herói que está descansando mas em breve virá salvar a Britânia, e o foco principal da história é o romance, constantemente associado a lenda, de Tristão e Isolda, sendo Isolda, neste caso, descendente do lendário rei. Apesar do título, a ilha de Avalon não aparece na história, e em todo o livro percebe-se apenas um pouco de magia nas visões e sonhos da protagonista. 

  O enredo se passa no que hoje é a grã-Bretanha, com os povos que ali viviam - os que hoje chamamos galeses - sendo cada  vez mais repelidos pelos saxões que há anos invadem seus territórios. Isolda é uma jovem rainha, curandeira e contadora de histórias recém-enviuvada e desprotegida neste cenário de guerras entre britânicos e saxões, além de intrigas entre os reis britânicos. Isolda, como quase sempre acontece com mulheres que entendem mais de certos assuntos do que homens, tem de lidar constantemente com acusações de bruxaria. O mais estranho, fato que me incomodou um pouco, foi a aparente falta de memória da personagem, que não se lembra de sua infância e esquece até mesmo de algumas pessoas que foram muito próximas a ela nesta fase da vida. Esse estado desmemoriado dura até quase o fim do primeiro volume.

  Diferente de outras história de Tristão e Isolda, como a do filme, por exemplo, o rei Mark da Cornualha é o grande vilão neste volume, junto com um de seus agentes que permanece incógnito até o fim do livro. Mark desempenha bem seu papel de vilão, não tenho críticas a fazer ao personagem, pelo menos não no livro atual. Um dos personagens que, na minha opinião, mais irrita é Tristão. Certo, um pouco de coragem, humildade e auto-sacrifício são características desejáveis em um protagonista galante, mas o jovem exagera nesses aspectos, criando dramas desnecessários na narrativa, chegando a ser chato... A trama tem um bocado de ação, que compensa o excesso de drama em algumas partes, além de personagens, com exceção de Tristão, bastante eficientes em causar ódio ou afinidade ao leitor. A princípio, o romance ainda é fraco, mas há uma certa promessa de que se tornará mais intenso nas sequências. 

   No geral, é um bom livro, peca em alguns aspectos, mas a obra consegue ser uma leitura agradável e interessante, principalmente para quem gosta de ler sobre a história da Inglaterra sob um ponto de vista um pouco mais místico.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

[Resenha] Branca dos mortos e os 7 zumbis

FOBIYA, Abu. Branca dos mortos e os 7 zumbis: e outros contos macabros.
[S.l.]: nerdbooks, 2012. 240p.

RESENHA
por Juliana R. Santos

Capa - Editora Nerdbooks
 Juro que foi apenas coincidência a escolha dessas histórias, que misturam contos de fadas com literatura fantástica e de horror, na última entre as várias sextas-feiras 13 deste ano. De qualquer modo, acho que esta coincidência veio a calhar no fim das contas, não é? Usando o pseudônimo de Abu Fobiya, o autor Fábio Yabu escreve uma coletânea de onze contos dos conhecidos contos de Grimm, Andersen, Perrault e outros, em uma versão mais macabra, envolvendo zumbis, maldições e castigos cruéis. 
  
  Neste compilado, encontram-se versões alternativas de Branca de Neve, Rapunzel, o pequeno polegar, a vendedora de fósforo, João e Maria, Cinderela, além das referências menos diretas a outros conhecidos personagens e, até mesmo, a filmes. O mais interessante é que, se o leitor prestar um pouco de atenção, irá perceber que os contos se entrelaçam, com personagens de um conto aparecendo em outros em momentos anteriores ou posteriores, já que os contos não têm, necessariamente, uma ordem cronológica entre si. 

  Além de versões um pouco mais sombrias dos personagens das narrativas que habitaram a infância de quase todo mundo, o livro conta com zumbis, demônios, psicopatas, e animais selvagens famintos, que dão o toque brutal e macabro aos contos, tornando-os verdadeiras obras de horror, contadas em um tom lúgubre de quem conta histórias de terror. A seguir, farei uma lista de contos e uma breve sinopse de cada uma das onze histórias só para dar aos leitores uma idéia do que se trata cada uma. 


  • Branca dos Mortos e os sete zumbis - O conto que dá nome ao livro. Como já é possível perceber pelo nome, é uma versão da Branca de Neve e os sete anões; 
  • João, Maria e os outros - Diferente do que pode parecer pelo título, este conto é mais uma narrativa dos tormentos e da punição dos pais cruéis que abandonam os filhos na floresta, do que a história de João, Maria, e os tais outros que se revelarão na narrativa. 
  • Os Três lobinhos - Narrada sob o ponto de vista de três pobres lobos sozinhos e famintos a procura de comida. 
  • A Vendedora de fósforos e o vingador - Conta a história de uma jovem menina deixada para morrer por um pai desnaturado, e a futura punição, como é de se esperar nos contos de fada, do malvado genitor.  
  • Cindehella e o sapatinho infernal - E se a magia da fada que realiza sonhos for na verdade um demônio a tentar humanos com propostas irrecusáveis? A história de uma fada e de uma princesa não tão boas e inocentes assim. 
  • A Confissão - A história do menino de madeira irresponsável e malandro criado por Lorenzini, de uma forma um pouco mais sádica e cruel. 
  • Bela incorrupta - A história do cientista obcecado por trazer vida à cadáveres faz lembrar muito a história do doutor Frankstein. O conto faz referência não apenas ao romance de Mary Shelley, mas também a contos anteriores do livro.  
  • O Monstro - Contado em forma de poesia, narra a triste história de um monstrinho rejeitado e maltratado por todos. 
  • O Cemitério - Narra a conversa de dois mortos, livres a circular e conversar no cemitério por um determinado período da madrugada, ao mesmo tempo que essa conversa acontece, o leitor se reencontra com diversos personagens de contos anteriores. 
  • Samarapunzel - Faz referência a história de rapunzel, de forma mais sombria e demoníaca, misturada com certos elementos do filme "O chamado". 
  • O Fim de quase todas as coisas - Um brevíssimo conto, falando de um tempo muito após o fim da Terra e o que restou do planeta.

Capa - Editora Globo Livros

  O livro, ao menos a versão da editora Nerdbooks, conta também com o prefácio de Eduardo Spohr, conhecido escrito brasileiro de Batalha do Apocalipse e da série Filhos do Éden. Com poucas páginas, muitas ilustrações e capa dura, a obra é  possível de ser lida em apenas um ou dois dias. Para quem gosta tanto de contos de fadas quanto de contos de horror, vale a pena gastar umas horinhas para conferir essa fantástica e horrenda (não no sentido pejorativo) coletânea. 

É possível ouvir e ler alguns dos contos do livro através do site do editor no link abaixo:  http://jovemnerd.com.br/brancadosmortos/


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

[Resenha] Lugar Nenhum

GAIMAN, Neil. Lugar Nenhum. São Paulo: Conrad, 2007. 336p.

RESENHA
por Juliana R. Santos

 Recentemente tenho lido alguns livro de Neil Gaiman e, até agora, tenho gostado do que li. Lugar Nenhum pode não ser o melhor livro do autor, mas é, sem dúvida, uma excelente história, possuindo vários dos elementos fantásticos que caracterizam e enriquecem obra de Gaiman.

Capa - Editora Conrad
   Diferente do que ocorre normalmente, quando os livros são adaptados para série ou filmes, este livro era, anteriormente, uma série de TV escrita pelo autor para o canal inglês BBC, em 1996. A obra narra a história de Richard Mayhew, um jovem escocês que vive e trabalha em Londres, tendo uma noiva, a controladora Jessica, e uma carreira promissora pela frente. Tudo ia bem até que Richard encontra uma jovem ferida na rua e decide parar para ajudar, apesar das insistências de Jessica para que deixasse-a ali e seguisse em frente. É ai que a vida de Richard vira de cabeça para baixo. A garota ferida, ajudada por ele, é Door, que tem o estranho dom de abrir portas e parece estar sendo perseguida por dois tipos quase tão estranhos quanto ela mesma. Sem saber o que está acontecendo, o jovem se vê perdido neste perigoso e fantásticos mundo, escondido em sua própria cidade, a "Londres de Baixo".

  O autor consegue criar um mundo bastante interessante, que ao mesmo tempo pertence à Londres, mas é completamente diferente e mágico, um mundo nas galerias e telhados da cidade, onde onde os marginais (digo marginais me referindo a pessoas vivendo à margem da sociedade, não necessariamente a criminosos) vivem com suas próprias leis, e sua própria política, ignorados pelo "mundo real" acima. 

  Além dos personagens já mencionado, o livro conta com personagens como Old Bailey, o astuto De Carabas, a hábil caçadora Hunter, o Anjo aprisionado Islington, além dos crués comparsas Croup e Vandemar. O protagonista, apesar de adorável em sua bondade e ingenuidade, começa um pouco fraco, pouco mais do que um observador passivo que se limita a obedecer o que lhe é instruído, felizmente, ao longo da história a passividade passa a ser deixada um pouco de lado, não tanto quanto se poderia esperar, mas o suficiente para tornar a narrativa interessante. Outro ponto que eu consideraria negativo, mas que não chega a ser um impeditivo, são as constantes referências à locais específicos de Londres, tornando necessário que o leitor conheça certos pontos da cidade para se orientar completamente na trama. Para os leitores que fazem questão de entender cada detalhe da obra, é preciso ter um mapa de Londres e de seu metrô por perto, com seus nomes em inglês, pois vários elementos da trama, são baseados nesses nomes de locais, o que é bem interessante, mas, como já disse, é difícil para quem desconhece a cidade se orientar. 

  O mundo criado por Gaiman é bastante interessante, os personagens são bons, com apenas aquela pequena ressalva para o protagonista, e a narrativa é surpreendente e cheia de reviravoltas, o que torna a leitura muito agradável e interessante. Um livro que eu recomendo para  fãs e não-fãs do autor. Só sugiro, como faço com todos os filmes e séries baseados em livros, que, se for ver a série, faça depois de ler o livro, mesmo que a série tenha sido lançada antes, pois é sempre melhor imaginar o cenário e os personagens por conta própria antes de ver esses elementos imaginados pelo diretor. 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

[Resenha] A Morte da Luz

MARTIN, George R. R. A Morte da luz. Rio de Janeiro: Leya, 2012. 336p.

RESENHA
Por Juliana R. Santos
  
Capa - Editora Leya
   Como nunca li a série Crônicas de gelo e fogo (pretendo ler em breve), do mesmo autor, não posso dizer se este livro é melhor ou pior. Mas posso dizer que, surpreendentemente, já que usualmente não gosto muito de histórias futuristas, é uma leitura bastante agradável e interessante sob o ponto de vista das histórias e culturas dos povos apresentados. A escrita também é bastante boa, ainda mais se considerarmos ser este o primeiro livro do autor. 

   A narrativa se passa em Worlom, um planeta sem órbita fixa (como a Terra, que gira eternamente em torno do sol, por exemplo), que vaga pelo universo, vazio e sem vida. Quando este planeta se aproxima de algum sistema estrelar, permitindo que seres humanoides sobrevivam, ele é rapidamente habitados por povos de diversos planetas e diferentes culturas que constroem cada um a sua própria cidade, trazendo seus costumes e até mesmo plantas e criaturas de seus planetas. Porém, durante os acontecimentos do presente livro, o planeta está saindo desta "zona habitável" e vem sendo constantemente abandonado.

   O protagonista Dirk t'Larien encontra-se neste planeta, em uma visita a uma amiga que não  via há muito tempo, Gwen Delvano, mas Gwen está diferente do que ele conhece, ligada a uma cultura que Dirk não compreende. A problemática da narrativa ocorre, principalmente, devido às diferenças culturais de Dirk e de alguns dos habitantes locais, uma cultura baseada em luta, honra e posse, fatores que, como viremos a saber, se devem à história desses povos. A questão cultural e histórica envolvendo os personagens da trama, como já mencionei, é o ponto de maior destaque em todo o livro.

   Apesar do fantástico mundo futurista criado por Martin, a narrativa peca em relação aos personagens, principalmente o protagonista, que, na minha opinião, são um pouco fracos, apesar de não lhes faltar profundidade (talvez essa profundidade mais atrapalhe do que ajude neste caso, tornando os personagens muito reflexivos e pouco ativos), há que se esperar que, pelo menos o protagonista, tenha uma personalidade e atitudes mais fortes. Mas talvez isso se deva apenas ao hábito, já que, na maioria dos casos, o que se vê nos livros são personagens principais mais ativos.

   Apesar dos pontos negativos mencionados, a leitura de A Morte da luz é muito recomendada. principalmente para quem gosta de história futuristas. Mesmo os amantes das histórias medievais podem encontrar pontos semelhantes para se identificar na narrativa, como a questão da honra e obediência dos cavaleiros e a posição um tanto inferiorizada da mulher. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

[Resenha] Os Olhos do dragão

KING, Stephen. Os Olhos do dragão. Rio de Janeiro: Objetiva; Suma de Letras, 2011. 321p.

RESENHA
por Juliana R. Santos

Capa - Editora Objetiva
   Diferente da maioria dos livros de Stephen King, que eu chamaria de literatura de horror, este livro poderia muito bem se encaixar na descrição de literatura fantástica e infanto-juvenil. Uma narrativa um tanto infantilizada, quase uma fábula, mas ainda assim bastante agradável, com metáforas bem interessantes sobre a vida e a mente humana e infantil. 

   A narrativa se passa no reino de Delain, governado pelo rei Rolando, conhecido como "O Bom", um rei mais afeito aos prazeres da boa mesa do que ao intelecto. O rei casa-se com Sasha, uma rainha rica em virtudes, e esta lhe dá dois filhos. Tudo iria bem e seria perfeito, e não haveria enredo para nenhuma história, se não fosse pelo conselheiro real e vilão da trama, o feiticeiro Flagg, que se aproveitava do pouco intelecto do glutão Rolando para, aos poucos, controlá-lo, apesar da oposição de Sasha. 

   Após muitos anos a serviço do rei, e anos ainda anteriores em que esteve em Delain com outras identidades e profissões, Flagg decide que finalmente é chegada a hora de tomar o poder para si, e, para isso, com o auxílio de suas mágicas e poções, arma um plano cruel para se livrar de Rolando e seu primogênito Pedro, e elevar ao trono o, que ele acredita ser, frágil e manipulável Tomás. O último é mesmo um rapaz frágil e triste, que vem a se tornar ainda mais atormentado, devido aos fatos ocorridos ao longo da narrativa. O jovem personagem, com seus sofrimentos compreensíveis, torna-se digno da piedade do leitor, apesar de algumas atitudes questionáveis tomadas por este ao longo do livro. Enquanto Flagg é a personificação da maldade, o típico vilão das histórias infantis, Pedro é o protagonista perfeito, feliz, amado por todos e praticamente sem defeitos. Os dois personagens, e muitos outros na verdade, chegam a ser inverossímeis em suas características, mas isso é perdoável, considerando que se trata de uma fábula claramente voltada para crianças, como fica evidente pela linguagem adotada pelo narrador, o tempo todo conversando com o leitor. 


Capa - Editora Suma das Letras
   O livro conta também com personagens como Ben, Naomi, Denis, e a simpática cadela Frisky, que têm participação, mesmo que pequena, na conclusão da história. Outros elementos importantes para a trama são a casa de bonecas de Sasha e guardanapos. Sobre esses elementos não direi mais nada para não estragar a leitura, mas se lerem o livro, entenderão o que quero dizer.  

  Como já disse, trata-se de uma fábula, uma narrativa bastante infantilizada e, talvez por isso, bastante agradável, uma leitura rápida e despreocupada. Tanto a edição com o selo da Objetiva, quanto a com o selo da Suma das Letras, ambas pertencentes ao grupo editorial Santillana, possuem imagens e ilustrações, tornando a leitura ainda mais ágil e fluida. Quanto às edições mais antigas, não sei dizer se possuem as imagens ou não, pois nunca tive contato com nenhuma delas. Não é dos melhores livros escritos, é verdade , mas vale a pena gastar alguns poucos dias para conferir esta encantadora historinha. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

[Resenha] Contos de Meigan: a fúria dos Cártagos


Capa - Editora Dracaena
SPINDLER, Roberta; COMESANHA, Oriana. Contos de Meigan: a fúria dos cártagos. São Paulo: Dracaena, 2011. 618p.

RESENHA
por Juliana R. Santos

   A princípio, julgando apenas pela capa e sinopse, pareceu apenas mais um livro de fantasia, divertido, agradável, mas sem nada especial ou diferente em relação aos demais livros do gênero. Porém, essa ideia logo foi desfeita ao começar a leitura.

   O livro começa com um prólogo inteligentemente elaborado como uma carta de um sábio do passado, relatando os acontecimentos por ele estudados e vivenciados. A partir deste prólogo, o leitor já começa a entender melhor o mundo - um tanto complexo, mas bastante interessante - idealizado pelas autoras. A seguir o livro introduz a protagonista Maya, uma personagem, na minha opinião, bastante cativante. Que começa sua história, como todo jovem-adulto: sentindo-se temerosa, e insegura de sua capacidade de enfrentar os desafios que a vida lhe impõe, ainda mais quando esses desafios envolvem comandar um povo. Além disso, a personagem se mostra bastante ativa, do tipo que não aceita os acontecimentos passivamente, e busca resolver os problemas pessoalmente, mesmo que, às vezes, seja impulsiva demais na busca desses objetivos, desconsiderando suas limitações, o que a leva, muitas vezes, a fazer algumas “burradas”, porém, ao longo da história, Maya vai evoluindo, e se tornando um pouco mais sábia a cada erro cometido. A partir daí, a história segue de maneira bastante rápida, entremeando a trama principal, envolvendo a protagonista, com tramas de outros personagens, ajudando a criar um clima de suspense e mistério na história, numa velocidade de tirar o fôlego de qualquer leitor. Impossível parar de ler. (nem sei mais quantos pontos de ônibus perdi, imersa na leitura. Preciso parar com isso de ler no ônibus).

    Outro fato interessante sobre o livro é incerteza da identidade do verdadeiro vilão, claro que os cártagos, mencionados no título, cumprem esse papel, mas parecem apenas peças no tabuleiro de um jogador desconhecido. Umas pinceladas bem de leve de romance aqui e ali, ajudam a tornar a leitura ainda mais agradável, na medida em que essas, somadas às tiradas engraçadas (mas nem tanto) do personagem Keith, aliviam a tensão constante da narrativa, ajudando a dissipar a sensação de ódio causado pelas manipulações do vilão invisível.


   Excelente livro, um dos melhores livros brasileiros do gênero que já li, melhor até do que muito livro de fantasia estrangeiro. Vale muito a pena ler essa obra maravilhosa. Estou aguardando ansiosa pela continuação que, aparentemente, está prevista para 2014...  

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

[Resenha] Morte de Tinta

FUNKE, Cornelia. Morte de tinta. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 576p. (Mundo de tinta, v.3)

RESENHA
Por Juliana R. Santos

Esta resenha é referente à continuação dos livros Coração de tinta e Sangue de tinta. Se você ainda não os leu, pode haver elementos desta resenha que revelarão fatos sobre a história dos livros

Capa - Editora Companhia das Letras
   Finalmente chegamos ao terceiro e último volume da trilogia Mundo de Tinta. Diferente do que acontece entre o primeiro e o segundo volume, a história prossegue com os acontecimentos do segundo livro, sem um desfecho, como ocorreu no fim de Coração de Tinta, o que faz com que, muitas vezes, a história de um se confunda com a de outro, principalmente para quem já leu a trilogia há algum tempo. O livro é excelente, certamente melhor do que o primeiro, embora eu não saiba dizer se é melhor ou pior do que o segundo, digamos que seja tão bom quanto.

   Nessa história, a maior parte dos personagens se mantém, praticamente não havendo inclusões importantes, exceto por Doria, um jovem personagem bem “fofo” que começa quase sem nenhuma importância, mas que no fim, consegue alguma por suas ações e relações. O desprezível Orfeu consegue aumentar seu papel, se tornando ainda mais desagradável, apesar de Cabeça de Víbora continuar como vilão principal, enquanto Mo, se torna ainda mais participativo na história como herói da trama. Resa também é outra que ganha algum destaque nessa continuação, enquanto Meggie e Farid ficam um pouco mais passivos.

   Um ponto negativo da história são os capítulos que falam de Darius e Eleanor, a gente quase pode perder a paciência com os lamentos da última que perduram desde Sangue de tinta, até quase metade do último volume. Devido aos acontecimentos do final do volume anterior, Fenoglio também se torna um pouco mais chato e reclamão, pelo menos até a metade livro, quando ele e seus escritos começam a ter uma participação maior.

    A inclusão de alguns personagens secundários serve para quebrar um pouco a distinção tão clara entre o bem e o mau do volume anterior, mostrando que nem sempre o “lado dos bons” é totalmente altruísta, o que dá certa maturidade à narrativa. O desfecho da trilogia termina com os personagens felizes, como é de se esperar, mas não completamente ausentes de problemas, dando, inclusive, brechas para uma possível continuação, mas dificilmente esta poderia ser tão agradável quanto a narrativa recém-encerrada.

  Excelente livro, excelente trilogia, nos faz pensar, em vários momentos, na importância dos livros e das palavras, além de ser, de certa forma, um elogio tanto aos autores quanto aos leitores, além de, é claro, aos tão amados livros! 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

[Resenha] Sangue de Tinta

FUNKE, Cornelia. Sangue de tinta. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 560p. (Mundo de Tinta, v.2)

RESENHA

por Juliana R. Santos


Esta resenha é referente à continuação do livro Coração de tinta. Se você ainda não o leu, pode haver elementos desta resenha que revelarão fatos sobre a história do livro.

Se o primeiro livro Coração de Tinta foi bom, esta sequência é ainda melhor. E serve para agradar aqueles que, como eu, tiveram uma imensa curiosidade, ao ler o primeiro volume, sobre como seria o tão saudoso mundo de Dedo Empoeirado.

Capa - Editora Companhia das Letras
   O segundo volume mantém os dizeres no início de cada parágrafo, nos fazendo conhecer e desejar ler ainda outros livros (assim vou precisar de umas sete vidas para ler tudo que eu quero). A narrativa já começa introduzindo um novo personagem, um ser humano vaidoso, covarde e desprezível que chama a si mesmo de Orfeu. A única identificação que alguém pode ter com este personagem é o amor pelas histórias e por personagens específicos. Apesar disso, o personagem tem seu papel na história e, com essas características, desempenha-o bem. Além desse, novos personagens são incorporados à trama, como o vilão Cabeça de Víbora; os Príncipes Porcino, Cosme e Jacopo; a Princesa Violante; Roxanne; Pássaro Tisnado; o Príncipe Negro, este último, tão cativante quanto Dedo-Empoeirado; entre muitos outros, em sua maioria, habitantes do mundo de tinta. Os antigos personagens: Mortola, Basta, Elinor, Darius, Fenoglio, além de, é claro, Meggie, Mo, Resa, Dedo-Empoeirado e Farid, também continuam a participar da trama.

   O novo livro conta com novos vilões, sendo Cabeça de Víbora, o principal deles, este consegue ser tão bom quanto Capricórnio foi no primeiro volume, talvez ainda mais assustador, pois possui ainda mais poderes do que o outro. Um ponto interessantíssimo da história é a criação de um novo personagem por Fenoglio, o Gaio, inspirado em Mo, que acaba causando grandes problemas para este quando, de repente, se vê no Mundo de Tinta, esse fato colabora para melhorar ainda mais a participação de Mo na história, que ganha cada vez mais destaque na trama, se tornando mais ousado e ativo na narrativa. Farid também se torna mais ativo e importante na trama, que conta, além disso, com umas pinceladinhas de romance que a deixam ainda mais agradével

   Entre os pontos negativos (são poucos já que o livro em si é excelente) um deles seria o mesmo do volume anterior, a facilidade com que as habilidades combinadas de Fenoglio e Meggie solucionam problemas na história, apesar de este ser remediado em muitas situações por reveses que os atrapalham. Outro ponto negativo é a constante entrada e saída de personagens do Mundo de Tinta, o que faz com que este pareça com uma verdadeira “casa da mãe Joana”. Mas esses detalhes são perdoáveis, já que o Mundo de Tinta é um cenário bem mais interessante para o desenrolar da história do que o mundo real.



   Neste novo volume os personagens, tanto os novos, quanto os antigos ganham mais intensidade do que já tinham no anterior, deixando a história ainda mais profunda, apesar da clara diferenciação entre os personagens bons e maus, comumente presente na literatura infanto-juvenil.  

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

[Resenha] Coração de Tinta

FUNKE, Cornelia. Coração de tinta. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 456p. (Mundo de tinta, v.1)

RESENHA
por Juliana R. Santos

Capa - Editora Companhia das Letras.
Edição 2006
   Um livro excelente. Sem dúvida, está entre os melhores que já li. Foi transformado em filme em 2008 pelo diretor Iain Softlev. Para variar, o filme não foi tão bom quanto o livro, mas a  culpa disso é toda da produção (ou direção, ou sei lá) porque a história é ótima.
 Apaixonados por leitura com certeza vão se identificar.


   O livro narra a história de Meggie, uma jovem e ávida leitora em seus 12 anos, e seu pai Mortimer – ou Mo, para os mais próximos – encadernador de livros. Mo tem o estranho dom de trazer a vida personagens de livros ao lê-los em voz alta, até então, parece uma habilidade extraordinária e invejável... e era, até que em uma de suas leituras, quando Meggie ainda era pouco mais que um bebê, algo, além dos belos animaizinhos e objetos, saiu do livro: Capricórnio, o terrível líder dos salteadores; Basta, seu fiel companheiro; e um amedrontado Dedo Empoeirado, saltimbanco, e, apesar de algumas de suas atitudes consideradas pouco honradas, um dos personagens mais cativantes de toda a trilogia, na minha opinião. Tirando o fato de nunca conseguir que seu pai lhe contasse uma história dos seus tão maravilhosos e amados livros, e as constantes mudanças de endereço, a vida de Meggie e Mo ia razoavelmente bem. Mas o que Meggie não sabia, era que o vilão Capricórnio, saído do livro, estava atrás dos dons possuídos por seu pai para trazer, para o mundo real, seres do mundo dentro do livro, para o qual ele não tinha a menor intenção de voltar. 

Capa Filme - Editora Companhia das Letras.
Edição 2008.
Como já disse anteriormente, o livro é excelente. Uma das primeiras coisas que chama a atenção positivamente, são os trechos de outros livros, alguns bem conhecidos no Brasil, como Peter Pan, Harry Potter, Ilha do Tesouro e outros nem tanto, mas que tornam a experiência da leitura bem mais agradável, além de despertar o interesse para outras leituras, talvez igualmente interessantes.

Os personagens são outro ponto forte da história, apesar de ser considerada literatura infanto-juvenil, onde, geralmente, tanto a história quanto seus personagens são bem pouco profundos, isso não ocorre com este livro. A autora consegue nos passar, de forma bem profunda, os desejos, medos e sentimentos dos seus personagens. O vilão Capricórnio é um dos vilões que eu considero mais temíveis entre os livros que li e, se você costuma internalizar as sensações dos protagonistas das suas histórias, vai sentir o mesmo.

Outro fator bem interessante da obra é a relação travada, o tempo todo, entre os livros, seus personagens, leitores e autores. Uma coisa é ler o livro, e fechá-lo quando as ações e emoções deste se tornam intensas demais para serem suportadas no momento, mas quando a história vem à realidade, todas essas emoções e ações se tornam reais, e não há a opção de fechar o livro. O único contra, em minha opinião, é a facilidade com que o autor Fenoglio altera fatos e elementos de sua narrativa, elementos que são trazidos à vida pelo dom, possuído por Mo, de tornar escritos, realidade. Com habilidades combinadas deste jeito, fica quase fácil demais solucionar qualquer problema.

   Um ótimo livro, mas, ainda assim, o mais fraco da trilogia, continuada por Sangue de Tinta e Morte de Tinta, ainda melhores que o primeiro, ambos já lançados e a venda no Brasil. Coração de Tinta é o único dos três livros da série que pode ser lido independentemente, já que sua história se inicia e se encerra nele mesmo, continuar com os outros dois é opcional e muito recomendado por esta, humilde e inexperiente, resenhista. 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

[Resenha] O Espadachim de carvão

SOLANO, Affonso. O Espadachim de carvão. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013. 256p.

Capa - Editora Casa da Palavra

RESENHA
por Juliana R. Santos

Parece um livro bastante promissor para qualquer fã de literatura fantástica que acompanha os podcast do MRG. Realmente, um livro bastante agradável, porém, que deixa a desejar em alguns aspectos.

   Logo no começo somos apresentados ao protagonista Adapak, enfrentando seus perseguidores, já aí dá pra perceber que o personagem é bastante habilidoso nas artes de combate, então não dá pra esperar nenhuma evolução desta parte. Bem, com um começo assim, é de se esperar que muitas perguntas surjam, e à medida que o texto avança, as perguntas vão sendo respondidas, através de capítulos intercalados com cenas do passado do personagem, ao mesmo tempo em que outras perguntas vão surgindo. Entre essas voltas do passado, nos é explicado, através da fala do personagem Barutir, a criação do mundo, quando os quatro deuses descem à Kurgala, vazia de vida e governada por duas divindades, criam suas “casas” e as várias espécies de mortais que atualmente habitam o mundo. A seguir, aprisionam as duas divindades, e se recolhem a suas “casas”, deixando os mortais à própria sorte.

   A inocência e ingenuidade do protagonista, mostrada ao longo da narrativa, cria no leitor certa empatia com o estranho jovem de pele escura, o que é uma coisa boa, porém os demais personagens parecem um tanto obscuros, pouco detalhados e pouco importantes à história. Além de que as inúmeras espécies mortais apresentadas no livro confundem o leitor, sendo difícil a visualização de todas as características e nomes de tais criaturas com exatidão, eu pelo menos tive essa dificuldade, talvez fosse uma boa ideia uma edição com anexos contendo imagens dos vários habitantes de Kurgala.

   Outro ponto interessante é a forma como o texto tem pausas para destacar certos elementos da narrativa, principalmente dos pensamentos do protagonista, dando certo tom dramático à leitura.

   O livro, em geral, é bastante bom, uma leitura muito agradável, mas incomoda um pouco a forma, muito simples, como certas coisas são aprendidas por Adapak, mas essa parte pode ser justificada pelo desejo do autor de ter um protagonista jovem e habilidoso, o que não seria possível se ele levasse o tempo habitual para aprender certas habilidades. A história também deixa muito a desejar no desfecho, rápido demais, corrido demais, deixando algumas perguntas a serem respondidas, como “O que havia na carta de T’arish?”, por um momento, achei que aquela carta poderia conter mais do que apenas parte do romance da história, mas informações importantes sobre os fatos que estavam ocorrendo ao espadachim negro. Espera-se que essas e outras questões sejam respondidas no volume 2, previsto para ser lançado no 2º semestre de 2014. Outra questão que fica sem resposta é:

ATENÇÃO, O TRECHO A SEGUIR PODE SER CONSIDERADO SPOIL!

   Por que a casa de um dos deuses se desfaz com sua morte, e a de outro permanece intacta mesmo com o deus, proprietário da mesma, morto?